Operário

Vi ferro incandescente
calor em brasa seca a alma
Esfria o peito
Eu pisei o chão de fábrica
A morte lenta em produção
Dois cafés, dois cigarros
3000 peças sem defeitos
O tempo na prancheta,
O movimento em segundos
Tudo é preciso
O sonho é fora do padrão
Viver estrapola os limites
Liberdade não se encaixa
Pensar atrapalha as engrenagens
E o amor ?
Esse não tem serventia
Deixa tudo mais lento
Desatento, impreciso, desmedido, sem controle
Sem lógica e sem razão.

O nada

Há espaços vazios em todos os lugares

Do atômico ao cósmico

Há vazios 

Nos nossos passos,

Nos olhares

No sentir

Esses vazios físicos

Estão cheios de nada?

Esses nossos vazios

Seriam a ausência de tudo?

A ciência diz

O nada inexiste

O vazio vibra repleto de energia

Nossos vazios em que tudo parece ausente

A poesia inunda

Mas só,  não se pode ler.

Sobre luz

Me questiona sob luz
Sobre cantos
Clareia quartos ou muro?
Ou todos ?
E a pele grafada?

Minha vista ofusca
Grafias, tão sutis
Que somente pele lê
Sente,
Assenta na sala
Com menos uma pressa
O presságio quando chega
Chega fato claro e quente
Quatro fogos iluminam
A luz fria.
Nem silêncio, nem grito
Entre lábios, sussurros
A sala , as paredes, o teto e até os limites se apagam
Os afagos como relâmpagos
O voo ,suspenso, do tempo
O êxtase para o amanhecer

Saudade

Saudade
É
Poesia pronta
Dessas que começam amanhã
Duram até um instante depois de agora
Saudade não é de passado
De passado é lembrança
Saudade é de esperança
Espera
Do retorno
Da volta
Do reencontro
Saudade se cuida tal a vinhedo
Saudade é desejo
O prazer de provar
Da mesma uva
Novo vinho
Da mesma boca
Outros beijos
Outro aconchego
No mesmo abraço
Saudade é poesia que cuida
De todo o sentir, que dorme.

Ressaca

Acordou de ressaca

A ressaca de quem não bebeu da vida

Das realizações, das conquistas

Talvez não seja ressaca

Seja abstinência

De sonhos concretos, de amores que brilham nos olhos, de cama dividida, de cumplicidade nos sorrisos

Acordou 

Foi de chá de boldo

Duas aspirinas

Uma máscara para atravessar o dia 

Um bom sorriso

E um leve brilho no olhar

Acordou

E foi como acordar dentro de um sonho ruim

Acordou e tem que esperar para acordar

Acordado terá que achar um jeito

De achar um sonho

Que lhe deixe acordado.

Terapêutico

Hoje sai às ruas, não para vadiar como fazia nos dias antigos, fui para a terapia, é preciso cuidar da mente para suportar o ócio imposto. Nas ruas dos centros as portas de metais se olhavam sem entender o sono dos cadeados e a persistência das trancas. Vi calçadas esperando o concreto sob as sombras duras das árvores que estranharam o som do vento nas suas folhas tão acostumadas aos escapamentos e o burburinho de pessoas, que agora caminham sozinhas, cabisbaixas e atentas atrás de algum sustento com medo do vírus na próxima esquina.
Nos autos só vejo olhos e máscaras, quase não há música e tão pouco risadas, até a fala é contida, é preciso defender a diária e manter a geladeira abastecida. Vozerio mesmo lá no alto das torres com seus discos e retângulos com os bons dias, as orações matinais, pedidos de ajuda, avisos enlutados, testes negativos, felicitações de todos os tipos, pedidos de comidas e alguns alucinógenos, desejos confessos , jogos sexuais e fantasias de amor.
Já fora do centro, os ciclistas covidianos e os caminhantes pandêmicos , com seus corpos nem tanto atléticos e com seus pensamentos céticos sobre o número 3650, acreditam que o vírus ao ser expelido, de seus pulmões forte e imunes, morre no mesmo instante, assim não precisam se manter distantes, muito menos usar máscara que não combina com seus trajes colantes e seus capacetes estes muito mais importantes.
Nos semáforos infelizmente todos os tipos de fome, de pedras até passagens, todas pedindo além de trocados alguma atenção, sem medo da peste talvez por que já não lhes resta motivo para seguir sobre esse chão.
Chego em casa, no quintal tiro os sapatos e passo álcool, tiro a roupa e a máscara, passo álcool no corpo para chegar ao banho, do banho ao quarto, do quarto à sala, na sala a escrita restrita ao caminho de volta da sessão de terapia.

Conectados



Confluência de momentos apanhador de lembranças alheias colorindo a boca tatuando poemas há um desabafo um beber e um canto não sei se esquina por dentro ou de pássaro ou desconforto esconda seus pensamentos no som de dentro ouço as coisas sem mundo falta presença e recordação o fogo frio e o que não cabe liga a trama guarda o necessário a migalha o livro a mente alheia pari palavras vela prece e pesa no miocárdio amar leva porrada pedras de lágrimas e espelhos d’água fragmenta saudades ocultas queima um suspiro o sabor amarelo e o limão.

Um dia depois do fim

Morre
A terra morre
Assim que plantamos a primeira semente
No segundo seguinte ao primeiro bicho domesticado
Morre a terra
Morre

Morre
A terra morre
Assim que o homem fincou raiz
Assim que derrubou a primeira árvore
Logo que queimou o primeiro mato
Para produzir mais que o necessário
Morre a terra
Morre

Morre
Quando o gelo ártico some
Quando a água seca
Quando o mar cresce
Quando o verde queima
Quando a ilha é de plástico
Morre
A terra

Não!

Morre o homem
Morre
Cada vez mais depressa
Cada vez mais pobre
Produzindo mais riqueza
Morre
O homem morre

Morre o homem
Quando mais um bicho extingue
Quando o mel para
Quando aquela flor some
Morre
O homem morre

E não vê que morre
Pois o desejo de tudo ter o consome
E nem tudo o que tem
Tem a necessidade de ter
E o ser que o humano deixou de ter
Morre
A terra sofre
Até o dia que o homem some.